Sem jamais ter atuado por um clube de fora do Brasil, o zagueiro Edson Silva, 30, viu seu sonho virar pesadelo neste ano após aceitar uma proposta para jogar pelo Estrela Vermelha, da Sérvia. Salários atrasados, receio de ser deportado e promessas não cumpridas fizeram ele e a mulher se desesperarem. Ela, grávida de sete meses, até chorou de medo.

"Eu fui pra Sérvia em fevereiro depois que saí do São Paulo. Acabei passando só cinco meses por lá e enfrentei vários problemas. A documentação da minha família não foi entregue, teve atraso de salários. O clube combinou uma coisa e não cumpriu. Eu achei melhor rescindir o contrato e voltar ao Brasil", disse para o ESPN.com.br o hoje defensor do Mirassol.

"Jogar na Europa é o sonho de todo jogador. Tem muitos clubes para você ir, mas alguns não são tão viáveis. No Estrela Vermelha não deu certo. Eles não conseguiram resolver várias situações e eu não estava com cabeça boa para jogar. Fomos campeões nacionais, mas mesmo assim tinham coisas pendentes. Muitos aceitavam o que acontecia lá, mas para mim é inadmissível. Cobrava meus direitos já que eles nos cobravam dentro de campo."

O desabafo do zagueiro é acompanhado por uma fala triste. De origem humilde, nascido em Santa Tereza, um pequeno povoado do interior de Pernambuco, ele sempre foi conhecido nos clubes pelos quais passou pelo bom humor, pela irreverência e pelo companheirismo.

Deixou o São Paulo no final do ano passado após o fim do contrato. Foram quatro anos defendendo o clube do Morumbi, com um título da Copa Sul-Americana e um vice-campeonato Brasileiro. Não houve interesse na renovação do vínculo. Ficou um mês desempregado até aparecer a proposta do Estrela Vermelha.

A ida para a Sérvia deu ao defensor a impressão de que seria uma solução. Receberia em euros, teria a oportunidade de jogar na Europa e progredir. Foi acompanhado da esposa grávida de sete meses e do filho de sete anos. Foram apenas sete jogos pelo Estrela Vermelha, campeão nacional de 2015/16, e a rescisão contratual em julho.

"Eu sou um cara muito extrovertido, um cara de grupo. Na Sérvia eu não tinha isso pela dificuldade da língua. Tinha dois companheiros no time. Um português, o Hugo Vieira, e um argentino, Ibañez. A minha comunicação era mais com eles. Gosto de me comunicar com os companheiros. Eu tentava falar um pouco de inglês, idioma que não tenho facilidade", disse Edson Silva sobre a tentativa de se ambientar e tentar melhorar o cenário.

"Os problemas extracampo me chateavam. A diretoria não dava satisfação e não falava que o clube estava com dificuldade financeira. A coisa não acontecia", afirmou, relembrando na sequência um drama maior do que os salários atrasados.

"A documentação da minha família não estava certa. A gente tentou tirar o visto de permanência, algo que tínhamos acertado que era responsabilidade do clube. Eu fui até a polícia para obter explicação. O clube estava empurrando com a barriga. "Amanhã faremos". "Brasileiro precisa de mais tempo". Eu estava sem cabeça nos treinos e nos jogos. A equipe estava muito bem, ganhando quase todos os jogos e sabíamos que iríamos ser campeões, era só uma questão de tempo. Mas minha preocupação era outra".

"Passei muitas noites sem dormir. Esses cinco meses na Sérvia foram bem complicados. Eu não tinha paz nem minha família. Grávida de sete meses e meio, minha esposa chegou a chorar. Ficamos um pouco assustados, era minha primeira experiência fora do Brasil. Logo nela aconteceu tudo isso. Ficamos em choque".

Edson Silva revelou que com o tempo o drama familiar aumentar. Isolados na Sérvia, com contato familiar apenas pelo telefone, eles temiam pelo futuro da filha que estava para nascer.

"Tínhamos feito todo nosso planejamento para que nossa filha nascesse na Sérvia. Fizemos até enxoval por lá. Mas por causa do atraso na documentação ficamos com medo de sermos deportados. Nos deram um prazo de 90 dias [três meses] para resolver e era o que iria acontecer. Poderíamos ir embora, deportados, e ela [a filha que estava para nascer] ficar no país por ser cidadã sérvia. Pegamos informações com advogados e tudo mais e tomamos atitude. Para minha família era difícil, mas voltamos ao Brasil com minha esposa no oitavo mês de gravidez e nossa filha nasceu em Maceió", contou o zagueiro.

BASE FAMILIAR E FUTURO

Apegado aos parentes, que ainda moram em Santa Tereza, especialmente o irmão Eduardo, um dos cinco que Edson Silva tem, o zagueiro procurava amenizar a realidade durante as conversas por telefone. Mas o abatimento era quase impossível de camuflar.

"Eu conversava sempre com a minha família, que ficou no Brasil em Pernambuco, e tentava amenizar a situação para não deixá-los preocupados. Mas só pela minha voz e pelo meu jeito de falar minha mãe percebeu. Meus avós também perceberam. Falava com meu irmão Eduardo quase todos os dias, meu braço direito. Ele é o cara que mais tenho afinidade. Todos perceberam que algo não estava indo bem", contou com a voz triste.

Edson Silva disse que a volta para o Brasil animou a família. Nem mesmo o fato de ter ficado cinco meses desempregado até ser contratado pelo Mirassol o desanimou. Anunciado há uma semana, ele já está contando em fazer um bom campeonato.

"Acabei voltando ao Brasil, curtindo um pouco mais a família e fiquei cinco meses só treinando para manter a forma. Minha esposa teve a bebê aqui e ela já tem seis meses. Agora que está tudo bem eu espero em 2017 retornar a atividade no Paulistão e retomar a minha carreira firme e forte para no segundo semestre conseguir alguma coisa boa. Na vida tem certos momentos que precisamos parar e pensar na carreira. Para saber o que realmente a gente quer", refletiu.

Sobre o Mirassol, ele assinou um contrato até o final do Estadual, uma vez que a equipe do interior paulista não disputa nenhuma divisão nacional. Ainda assim é uma oportunidade para Edson Silva tentar retomar a carreira e renascer para o futebol brasileiro.

"O Mirassol abriu as portas para mim, é um clube espetacular. Da todas a condições de trabalho para mim. Agora é retomar os treinamentos estou muito bem e queremos classificar entre os oito. É o nosso maior objetivo. Quero agarrar essa chance com unhas e dentes."

postado por Hidon às 10:47

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